[Coluna] A suspensão da descrença ou isto é um bafo!

A suspensão da descrença ou isto é um bafo!

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Compramos um ingresso de cinema ou livro sobre dinossauros entre humanos, invasões alienígenas ou menino bruxo. E, quando desfrutamos, está tudo indo muito bem até que algo acontece: uma garota corre de um T-rex usando salto alto. “Isto é mentira!”. Claro que é, mas tudo que ocorreu antes neste filme ou em outros filmes/livros que consumimos a todo o momento não é também mentira?  Por que existe uma mentira plausível e outra que não conseguimos admitir?

Recentemente li um livro chamado “Sombras do Paraíso” de David Goyer e Michael Cassutt que trata sobre um objeto que se tornará um NEO (Near-Earth object e não o Keanu Reeves) dentro de poucos anos. Ocorre uma missão e tal, não vou dar spoilers. A questão é que foi uma leitura que, em um determinado momento, eu parei de embarcar na história, algo não estava funcionando e, apesar de ter gostado do livro como um todo, me deixou um pouco decepcionado. No entanto, quando li (e assisti) 2001 – uma odisseia no espaço do Kubrick/Clarke, mesmo na parte mais ‘viajada’ da obra, consegui embarcar e ser enganado. Sim, ser enganado é a parte fundamental de uma obra. Toda obra ficção (e até mesmo as de não ficção) são construções, até mesmo nós nos construímos sempre. Se eu te perguntar: “quem é você?”, você vai falar “Sou fulano de tal, tenho tantos anos e tal.” Isto não é uma construção? E tendemos a acreditar, a embarcar nisso tudo até um momento que o narrador desliza. Grandes autores são realmente grandes por nos enganarem com maestria, nos fazem suspirar, chorar, rir e sentir como se tudo aquilo existisse de verdade.

*Para saber um pouco mais sobre Sombras do Paraíso:

O grande enigma e força motriz da literatura é um termo criado por Samuel Coleridge chamado the willing suspension of disbelief – suspensão voluntária da descrença. É o esforço que precisamos fazer para embarcarmos numa história, seja ela um poema ou mesmo Sharknado. Penso que é um contrato que firmamos de maneira inconsciente com o autor, não escolhemos o que acreditar ou não, mas percebemos aquele certo momento em que ele põe tudo a perder.

Daniel Faleiro

@figuinho

Figueira de Livros – Canal Youtube

 

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